2005-10-08

Térmitas planetárias

Como uma casa invadida pelas térmitas, a Terra está também condenada, invadida que está pelos laboriosos humanos. Ninguém a chorará.

Ruído

Cacofonia humana ou silêncio? Silêncio.

Niilismos

A horrível verdade é que a vida humana é incompatível com o bem. O suicídio é o único acto sem mácula.

2005-10-03

Brincadeiras de adulto

Leio sobre a liberdade e as leis. Comento o livro, interessado. Notas nas margens, sublinhados, setas, cantos marcados. Critico, proponho, alegro-me ao descobrir a frase certa, o argumento perfeito, a metáfora ideal. Afundo-me na argumentação mais densa. Relaciono com trexos do texto anteriores. Descubro supostas contradições. Imagino-me autor, escrevendo de novo, e melhor, sobre a liberdade. Ilusão comum, reconheço. Levanto os olhos e vejo o mar a bater no rolo, a água a cair em cascata pelas arribas. Uma beleza aleatória, inumana, quase anti-humana, de tão clara que deixa a nossa irrelevância. Não servimos para coisa alguma. Nem a palavra "servir" tem sentido.

Água a cair. O universo é nada.

Predestinações

Aqueles colegas grandes, maus, que nos batiam e humilhavam no recreio com prazer evidente, onde estão eles? Quem são? O pai de família barrigudo, batendo na filha imbecil e teimosa, no meio de uma família de falhados? O político de sucesso? Os Jorges Coelhos e Isaltinos deste mundo, sempre impantes e satisfeitos, sempre seguros do alto da sua estupidez?

Espécie invasora

Não há natureza sobre a terra. Ainda a há no mar.

Portugal 3

Esgoto e merda. Mãos sebentas. Balcões imundos, onde panos enegrecidos espalham a gordura uniformemente. Desmazelo.

Portugal 2

Um escarro no chão, um papel de gelado a voar ao vento, uma beata na areia, um preservativo a boiar no mar. Cloaca do mundo.

Portugal 1

Gente feia, mal vestida. Carros feios ao acaso. Lixo, entulho. Improviso. Desaprumo. Povoações feias que se unem num horror contínuo. Raramente, um oásis recorda-nos que vivemos num deserto de beleza. Portugal é um enorme subúrbio da Europa.