2004-09-13

Domingo em Lisboa 8

Queria estar num barco, junto ao Ilhéu de Monchique, ouvindo o compasso das ondas medir, irregular, a curta duração das nossas vidas.

Domingo em Lisboa 7

Que saudades do tempo em que não tinha pudor de mijar ao ar livre, contra uma parede. Hoje tenho de suportar casas de banho infames, com o cheiro concentrado de milhares de mijadelas que falharam o alvo, onde para chegar à retrete ou ao urinol há que procurar um caminho secreto escondido sob um pântano de mijo e merda.

Domingo em Lisboa 6

As democracias têm horror à repressão que poderia manter as suas cidades vivíveis. Os seus cidadãos, ironicamente, refugiam-se nos centros comerciais, únicos locais onde a repressão é tolerada.

Domingo em Lisboa 5

Houve um tempo em que via beleza no meio da sordidez e da miséria. Nessa altura terminava os meus passeios por Lisboa cansado, mas satisfeito. Hoje, pelo contrário, é um pesadelo. Os meus olhos não vêem senão o que incomoda, o que perturba, o que entristece. A casa é o meu refúgio. Tornar-me-ei pálido, transparente. Fugirei do mundo. Passarei o resto da vida vendo telejornais e comprando na Internet livros que nunca lerei.

Domingo em Lisboa 4

Gente feia. Suada. Mal vestida. Gente triste. Cafés deprimentes. Tascas escorrendo surro pelas portas, enegrecendo um passeio já cinzento de poluição. Só a chuva se adequa a esta gente, a esta cidade. O sol, cruel, expõe sem piedade a sordidez lisboeta.

Domingo em Lisboa 3

Quantos anos até se reconhecer a nossa própria menoridade? Até ser capaz de admitir a nossa incompetência? Há sempre uma esperança de redenção, sempre uma expectativa. Amanhã começará uma nova fase na nossa vida, dizemo-nos. De realização, felicidade, sucesso. Agarramo-nos como náufragos a pequenas ilhotas de sucesso, rochedos batidos pelas ondas de um mar de derrotas, que conseguimos em sonhos transformar em continentes. Felizes os que se sabem iludir. A única alternativa é a coragem do suicídio.

Domingo em Lisboa 2

Em 38 anos de vida, tive a sorte de nunca conseguir visitar o Claustro da Sé. Até hoje. É deprimente. Negro de fumo, ruína, abandono. Abandono não: antes a negligência de quem não lhe parece reconhecer valor. Tristeza e cinzento. São estas, de resto, as principais características da nossa cidade que alguns dizem branca. Cidade suja, cinzenta, triste, medíocre. A capital certa para um povo também ele sujo, cinzento, triste e medíocre.

Domingo em Lisboa 1

Uma barraca na Rua Augusta, as goteiras remendadas com sacos de plástico e fita de embrulhos, vende livros manuseados, inúteis.

2004-09-04

Pecado mortal 1

Não gosto que me tratem com deferência: sinto-me mal por me sentir bem.

Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Sou dos que chora durante os filmes. Dos que ficam para trás, disfarçando lágrimas, fingindo interesse no genérico final.

Hoje foi diferente. Vi o filme e, quando terminou, e só então, chorei. Uma pequena pérola. Pura poesia.

Afelicidade

10 anos feliz. 10 anos confuso. Depois afeliz.

A non riddle

Afraid I'm not
to break this yellow draped circle
and enter unvisited ground.
No evil can come to me,
not now, that I've plunged deep
and know what my inner colour is.

Jardim português

Destrói-se, para nada construir. Entre a natureza intocada e o jardim japonês não há nada.

sem título

Perejil-do-mar em flor sobre basalto.

sem título

Um sossego onde não há silêncio. Só os ruídos do vento, da chuva, ou dos pássaros.

Lamento

Eles vêem-nos envelhecer, nós vemo-los crescer. Nós já conformados com o fracasso. Eles ainda certos do sucesso. A meio o difícil período da aceitação da própria mediocridade.

Niilismos

Nada sobre nada. Caca de mosca num vidro partido de uma casa abandonada.

Niilismos

Gente. Tiques. Ritos. Rictos. Seis mil milhões de vezes repetidos. Julgamo-nos todos únicos.

Umbiguismos

Como amigo, o meu principal defeito é esquecer os amigos.

Auto-ajuda

Quem aos 38 anos descobre a sua irrecuperável mediocridade tem um única solução: explorá-la, expondo-a. Ser diferente, mostrando ser absolutamente igual. Depois, finda a breve glória, morrer lenta e irrelevantemente.

Identificadores

É curioso. Quando vejo "Manuel", identifico-me. Seis letras. Sinto sempre como um roubo haver mais pessoas com este nome.